Dia 1 de janeiro de 2020, quando cheguei em casa após a noite de virada na casa de uma querida amiga, senti que estava inspirada para escrever novamente no meu diário (que uso desde 2005) e, enquanto escrevia, me interessei por ler o que tinha escrito até então durante os anos. Foi ai que um clique me veio sobre o quanto eu pareço ser praticamente a mesma menina que começou a escrever lá aos seus 12/13 anos, ao menos quanto a essência e as dificuldades que enfrentava mentalmente desde então.
Muito tempo se passou, vi tanto de longe quanto de perto alguns de meus amigos crescerem, se formarem, enfrentarem a vida com seus casos amorosos, familiares, profissionais e pessoais e hoje - mesmo com seus problemas - estarem tão bem (ou ao menos em um progresso). E eu?
Bom, eu não sei como sentir. Minha vida sempre foi algo difícil de definir e lidar pra mim mesma, praticamente o tempo todo sempre me senti muito sozinha, não sei se é algo que começou fortemente ligado a genética ou se foi realmente pelas experiências de vida desde bebê, mas é como se tivesse uma bolha em volta de mim o tempo todo e que mesmo quando alguém se aproximava, apenas a amassava, porém ela sempre voltava a sua forma original depois de um tempo (curiosamente o título do meu blog antigo é 'memórias de um ciclo em uma bolha'), e eu sinto que a carrego até hoje.
Eu não sei como sentir, sempre conversei muito comigo mesma. Na tentativa de acertar e me incluir entre as pessoas, acabei criando um outro alguém dentro de mim que consigo divagar por horas e horas, perguntando tantas coisas e criando ideias que nunca foram passadas para um papel (eventualmente elas somem). Algumas pessoas que convivi devem reconhecer quando entro num modo 'diferente', e começo a conversar sobre assuntos mais profundos, quando fico faminta por compartilhar experiências, por definir as sensações e por tentar se ligar como se fosse um contato não somente entre duas pessoas, mas entre suas almas. Eu sou apaixonada pelo que esta além dos olhos e, ao me conectar com alguém dessa forma, carregarei no meu coração sempre um grande amor e carinho pelo que senti de sua essência. Pode não parecer, mas eu amo demais sabe? ~
Eu não sei como me sentir com as más experiências que tive na vida. Já fui muitas vezes traída, molestada, zombada, julgada, estuprada, enganada, humilhada e machucada. Não, eu não sou uma sem defeitos ou culpa, já errei bastante. Fui tóxica, ciumenta, vingativa, surtada e marquei negativamente a vida de várias pessoas. Mas ei, mesmo assim sei que não merecia muito do que fizeram comigo. E essas coisas marcam, todos sabemos o quanto marcam, e muitas vezes mesmo quando superadas, essas lembranças vão estar escritas no nosso passado e farão parte de todo o conjunto que nos molda como pessoas.
Eu não sei como me sentir com as boas experiências. Certa vez, enquanto comia um biscoito da sorte, tirei uma frase que dizia algo como 'Quando mais precisar, alguém estará lá por você', e isso nunca foi tão verdadeiro pra mim. Em todos os maus momentos que passei, logo em seguida aparecia uma pessoa pra estender a mão e me trazer de volta a consciência. Essas pessoas parecem ser destinadas a ter esse impacto, pois um tempo depois da experiência, nossas vidas acabam se separando e seguimos em frente (muitas vezes por eu me afastar também). Elas são como anjos que eu sempre vou me deitar a noite e agradecer por te-las conhecido. Sou muito grata a elas.
Eu não sei como me sentir quanto a relações sociais num geral. Sempre tive uma imensa dificuldade para manter um relacionamento, por muitos anos me sentia a pessoa mais extrovertida e cheia de contatos possível, porém com o tempo eu fui me fechando e consequentemente esse ciclo foi mudando, diminuindo, se desfazendo. Sei que é extremamente comum acabarmos podendo contar nas palmas de uma - ou no máximo duas - mãos nossos verdadeiros amigos, os que gostamos de dizer que serão para a vida toda, porém até mesmo com esses poucos eu não sei bem como lidar. Amo, mas não me acho digna da relação. Dignidade e merecimento nunca foram roupas que consegui vestir.
Não me considero uma pessoa burra, longe disso, mas tenho bastante consciência que minha inteligência emocional é mínima. Eu sinto demais, mesmo quando finjo que não, mas sinto. As vezes, dentro da minha bolha pessoal, um pequeno gesto de alguém já faz meu dia ser incrível. Começo a cantarolar, escrevo, rendo no que faço, sorrio, faço palhaçada para meus amigos, vou puxar conversa com quem costumo sumir no dia-a-dia, etc... e ai, escuridão novamente. Mas sei que alguém fará meu dia feliz novamente e fico nesse ciclo por toda a vida, minha felicidade depende muito do feedback e do que vem pelos outros, sou muito dependente. Da mesma forma que um bom sinal me alegra, a falta dele ou um mal sinal me destrói com a mesma intensidade. As vezes fico meses mal por uma atitude ruim de alguém que me importo e todo o looping de pensamentos ruins começam a reinar na minha cabeça. E o ruim disso, normalmente os maus momentos tendem a dominar totalmente meus bons. Minha bolha volta a reinar.
Em 2018 fui diagnosticada com bipolaridade e depressão. Bom, faz bastante sentido vendo agora o quanto do que passei e fiz podem estar relacionados a isso, e... eu não sei como me sentir. Eu não sei como sentir. Não sei como lidar com as montanhas russas da vida, não sei como realmente estou, não sei o que fazer. A vida vai passando e eu to aqui, como se fosse sentada num banco ao lado do meu eu adolescente, assistindo meu eu criança brincar com diversas fumaças que tomam forma de algo ou alguém e se vão. Serei eu a junção da minha condição mental, minha bolha e minhas experiências?
Estou e acredito que sempre estive nessa posição. Eu não sei como sentir. A razão nunca foi algo que me moveu a fazer o que costumo fazer. Como seguir um plano, como dar continuidade, como ter sucesso, como lidar, o que fazer, o que falar... é minha emoção quem me guia. Mas o que fazer quando nem você mesma sabe o que ela quer dizer? Aos poucos minha chama, minha essência vão se enfraquecendo dentro de mim. Eu não costumo mais conversar comigo mesma, não sinto mais quem sou e o que represento. Poucas coisas ainda gotejam ao meu redor e me fazem sentir um palpitar interiormente. Cheiro de cavalos, da chuva, de livros novos, uma troca de olhares profunda, uma carta amigável, uma representação legitima de afeto... e ai, escuridão.
Eu não sei como sentir, não sei como, não sei.








